A Roda de Conversa “O desafio e a beleza da intergeracionalidade”, realizada no dia 24 de novembro de 2025, fechou um ciclo de transmissões ao vivo do curso “Juventudes na EJA”. É possível assistir todas as transmissões no youtube do Observatório Jovem, clicando aqui. 

A partir do tema da intergeracionalidade, os participantes refletiram sobre o filme de arquivo “Memória é fio que se tece hoje”, feito especial para o Curso Juventudes na EJA, e como a experiência quilombola pode contribuir para refletir sobre a Educação de Jovens e Adultos.  Participaram da Roda de Conversa o professor Paulo Carrano (UFF), coordenador do curso, a professora Hayda Alves, do Instituto de Humanidades e Saúde da UFF do campus Rio das Ostras, e Marilda de Souza Francisco, do Quilombo Santa Rita do Bracuí no município de Angra dos Reis (RJ), detentora do título de Notório Saber em “Saberes, Artes e Ofícios Tradicionais” pela Universidade Federal Fluminense, 

Marilda narra  a história de luta do Quilombo do Bracuí. Na época do Brasil colônia, o território originalmente era uma fazenda que inclusive foi ponto de escoamento de pessoas traficadas e escravizadas. Descreveu como a história oral foi ferramenta para preservar a história do território e que a educação começou com cada um ensinando o que sabia para o outro. 

Atualmente o quilombo conta com a Escola Municipal Quilombola Áurea Pires da Gama. Marilda afirma que apesar de a escola ser reconhecida e apresentada como quilombola, o Projeto Político-Pedagógico ainda não é adequado ao território e suas necessidades. 

“Eu gostei muito de uma frase da Marilda que disse que a educação tem que ser transformada e adequada ao quilombo e aos territórios. E eu acho que é esse o esforço que nos une aqui hoje, e esse é o esforço que está muito presente no filme: Memória é fio que se tece hoje.” Afirmou a professora Hayda. “A questão da intergeracionalidade é fundamental, como uma pedagogia própria dos quilombos que a gente aprende com os quilombos e ela é importante não só para a educação quilombola, mas para pensar a educação brasileira como um todo. O filme é interessantíssimo e reflete essa beleza dos territórios quilombolas, ele reflete essa beleza cultural, essa beleza do diálogo intergeracional. A intergeracionalidade é um elemento que precisa ser valorizado nessa educação transformadora.”

O professor Paulo Carrano lembrou que ainda no princípio da luta pela titulação das terras do Quilombo, o Observatório Jovem do Rio de Janeiro/UFF produziu em conjunto com a comunidade o documentário “Bracuí: velhas lutas, jovens histórias” (43′). Essa obra “já tinha essa dimensão da intergeracionalidade são velhas lutas dos herdeiros da terra, que colocaram o corpo na frente dos tratores na estrada que rasgou a comunidade, que dividiu quem estava no mar e quem estava na serra, e os jovens atualizaram essa luta.”  

Assista ao filme disponível no canal do Observatório Jovem:

Luta por uma Titulação

Marilda faz parte de uma comunidade quilombola que luta pelo reconhecimento, regularização e titulação de seu território pelo Estado brasileiro. E na quarta-feira, 20 de novembro, dia da Consciência Negra, uma vitória foi conquistada: o presidente Lula, ao lado da ministra de Igualdade Racial, Aniele Franco, assinou 28 decretos de interesse social de áreas de quilombos – o Quilombo Santa Rita do Bracuí, foi um dos contemplados pelo decreto.

A ministra pontuou que o decreto é a fase anterior à titulação das terras. A medida possibilita que Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) avance na desapropriação das propriedades e pagamento de indenizações aos proprietários. Após essas etapas, os quilombolas vão receber a titulação de posse definitiva das áreas. São 5.203 famílias em 14 estados brasileiros contempladas pelo decreto e no estado do Rio de Janeiro apenas o Quilombo do Bracuí foi contemplado.

Fonte e Desenvolvimento do Gráfico: IBGE

Marilda começou sua atuação política pela defesa do quilombo aos 14 anos, hoje, com 62 anos, reconhecida como liderança dentro do quilombo, disse que recebeu a notícia do decreto durante as atividades do Dia da Consciência Negra. A alegria da notícia e a energia de um dia marcado por luta coincidiram. Entretanto, vão esperar para fazer uma grande festa quando a titulação oficial for decretada. 

Apesar de contar com uma história que transpassa diferentes séculos, o reconhecimento desses territórios e sua população é recente pelo Estado braisleiro. A constituição de 1988 é a primeira na história do país a reconhecer essa população e o Censo de 2022 é o primeiro em que o IBGE coleta informações específicas dessas comunidades. 

De acordo com a pesquisa, o Brasil conta com uma população de 1,3 milhões de quilombolas. O nordeste é a região que abriga a maior parte, com quase 70% da população quilombola. 

Fonte e Desenvolvimento do Gráfico: IBGE

Quilombo e educação

Marilda durante a Roda de Conversa, compartilhou o relato que muitos adultos do quilombo que não tiveram condições de terminar seus estudos ou mesmo iniciá-los não tinham coragem de voltar para a sala de aula por vergonha. Os índices sobre educação quando se trata da população quilombola sinalizam desigualdades sociais comparados ao resto da população brasileira. A taxa de analfabetismo dos quilombolas chegou a 18,99% (192.715 pessoas), 2,7 vezes acima da registrada entre a população geral (7,0%). 

Fonte e Desenvolvimento do Gráfico: IBGE

De acordo com Flávia Salazar Salgado, mestre em Cultura e Territorialidades (PPCULT- IACS UFF) e doutoranda em Educação na UFF, que estuda a experiência escolar de jovens do quilombo do Campinho em Paraty, é possível identificar alguns fatores para a saída de estudantes quilombolas das escolas, tais como o racismo estrutural e um calendário e currículo escolar que não respondem aos interesses e necessidades dos territórios quilombolas. 

Ao pesquisar três gerações de quilombolas, Flávia identificou o racismo estrutural como um grande fator de desistência. E escutou a mesma histórias diversas vezes: “na escola eles não comiam banana porque sabiam que iam ser chamados de macacos. Além disso, relatos de  preconceito por serem da roça. Os mais novos, dificuldade de integração. Impessoalidade, saem de uma escola muito pequena que todo mundo conhece todo mundo, e vão para uma escola grande onde conhecem o anonimato.”

Quando se trata sobre educação e quilombo, é preciso pensar em “educação quilombola” e “educação curricular quilombola”, são dois conceitos distintos. O primeiro pensa sobre a própria cultura, história e experiência quilombola estar presente na escola. O segundo pensa sobre como o ensino escolar precisa estar atento e responder às necessidades que o território quilombola precisa. Isto é, o estudante precisa estudar na escola algo que quando ele retornar ao seu território agregue às necessidades materiais. 

Flávia explica que a importância de “desenvolver um ensino regular em sintonia com o território onde  as crianças estão inseridas” é para incluir e garantir a permanência desses estudantes quilombolas. É necessário uma educação “afinada curricularmente com as culturas tradicionais e que respondam aos interesses dos territórios, como culinária, turismo de base comunitária, agroecologia, entre outros. Pensando a sustentabilidade dos territórios”.

No Brasil, alguns territórios quilombolas possuem escolas de nível fundamental, apenas um quilombo possui um instituto técnico que é o IF de Norte de Minas Gerais – Campus Quilombo Minas Novas, inaugurado em 2023. 

Flávia explica que até pouco tempo, mesmo as escolas dentro de território quilombola não trabalhavam em prol de uma educação em diálogo com a cultura quilombola. A luta é por um Projeto Político-Pedagógico comum, em diálogo profundo com esses territórios, e atualmente, quem unifica as lutas de comunidades tradicionais de povos indígenas, quilombolas e caiçaras é o Fórum de Comunidades Tradicionais, que reúne comunidades da Bocaina – Angra dos Reis, Paraty, Ubatuba – e os municípios de São Sebastião (SP) e Mangaratiba (RJ).

Indicações Cinematográficas

Assista ao Trailer | Memória é fio que se tece hoje 

Sinopse: Composta por registros de 1998 a 2024 do Acervo do Observatório Jovem da UFF, esta obra evidencia o Jongo como tradição viva e intergeracional. Através de cantos, danças e o tambor sagrado, a dança se revela como eixo de transmissão de saberes e identidade. O filme (15min.) ancora essa prática cultural no território, vinculando-a à luta quilombola pela terra. “Memória é fio que se tece hoje” celebra, assim, o Jongo como ato de resistência e reinvenção no presente.

O filme integra o curso Juventudes da EJA, inscreva-se aqui e assista a obra completa. 

Assista ao Filme Completo | Bracuí: Velhas Lutas, Jovens História

Sinopse: Em Angra dos Reis, às margens da rodovia Rio-Santos, encontra-se a comunidade quilombola Santa Rita do Bracuí. Desde 1960, os moradores travam luta contra grileiros e condomínios de luxo para se manter em terras que herdaram de seus antepassados. Antigos e jovens moradores compartilham memórias, experiências e projetos e se associam para a conquista da titulação da terra como território quilombola e para construir alternativas de desenvolvimento comunitário. Na Comunidade quilombola Santa Rita do Bracuí-Angra dos Reis/Rio de Janeiro, as narrativas revelam o processo de construção de identidades negras e quilombolas que não se faz sem contradições e não é vivido da mesma maneira por todos. No diálogo intergeracional os jovens do quilombo revelam o compromisso com a herança que envolve a continuidade de luta e a renovação da cultura da dança do jongo.

Translate »