Equipe de comunicação do Curso de Extensão Juventudes na EJA/UFF
Juliana Farias, bolsista de jornalismo
Camilla Shaw, jornalista
A violência de gênero se tornou um tema recorrente nos noticiários do país. Todos os dias são relatados casos de agressão física e psicológica contra mulheres, como assédio, estupro e feminicídio. 71% de mulheres afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio moral ou sexual, é o que consta na pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres, do Instituto Cidades Sustentáveis, em parceria com o Ipsos-Ipec. Além disso, somente em 2025 foram registrados 6.904 casos de feminicídio no Brasil — 4.755 tentativas e 2.149 consumações, totalizando aproximadamente seis (5,89) mulheres mortas por dia no país, segundo dados do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL).
A violência de gênero também é reproduzida no ambiente escolar, nas relações entre estudantes de diferentes idades e classes sociais. A professora Gabrielle Cotrim, de 35 anos, da rede pública estadual e federal, leciona Sociologia na zona norte do município do Rio de Janeiro e relata já ter ouvido e presenciado diversas situações desse tipo ao longo da carreira. “Desde sempre existiu e existe. O que eu acho que talvez hoje a gente tenha mais visibilidade pelas redes sociais.”
Entre 2013 e 2024, foram registradas 76.080 vítimas de violência interpessoal em escolas e 11.507 casos de violência autoprovocada. As notificações indicam que cerca de 57,9% das vítimas era do sexo feminino, enquanto 42,1% eram do sexo masculino, de acordo o Boletim Técnico “Escola que Protege: Dados sobre Violências nas Escolas” produzido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com cooperação da Unesco no Brasil.
Cotrim identifica que muitas vezes as denúncias realizadas por estudantes meninas são relativizadas e minimizadas por professores e coordenadores, por considerarem que meninas são dramáticas e exageradas. Para a docente, essa postura institucional banaliza episódios de violência e dificulta a criação de estratégias efetivas de enfrentamento nas escolas. Ela defende que o tema precisa ser tratado de forma mais estruturada no ambiente educacional.
O silêncio e falta de atuação por parte de professores homens nessas situações também é um problema recorrente identificado pela professora . E sugere que a participação de homens no combate à violência de gênero pode ser um fator de identificação positiva na formação de jovens estudantes. “Se esses meninos, que já são culturalmente misóginos, ouvirem mulheres professoras falando sobre isso [violência de gênero] muitas vezes não causa tanto impacto. Mas eu percebo que muitos alunos admiram muito os professores homens. Ainda assim, vários colegas — inclusive alguns próximos — acabam não se posicionando de forma clara, talvez porque não queiram perder a imagem de professores “legais” ou populares entre os alunos”, comentou Gabrielle Cotrim.
Além de fatores estruturais, a disseminação de discursos misóginos na internet tem contribuído para reforçar comportamentos violentos entre jovens. Comunidades e influenciadores associados a movimentos conhecidos como “redpill”, por exemplo, difundem conteúdos que reforçam estereótipos de gênero e apresentam mulheres de forma inferiorizada ou objetificada. Segundo Cotrim, esse tipo de conteúdo já aparece no cotidiano da sala de aula. “Hoje existem influenciadores que propagam esse tipo de discurso e muitos alunos acompanham. Mesmo quando a gente tenta problematizar, eles dizem que é brincadeira. Mas essas ‘brincadeiras’ são consumidas o tempo todo”.
Cotrim afirma que o debate sobre gênero, respeito e relações afetivas deveria fazer parte da rotina escolar. “A escola precisa encarar que esse é um problema real. Muitas vezes existem vários problemas acontecendo ao mesmo tempo e a direção acaba escolhendo qual vai resolver primeiro”, explica.
Entre as possíveis estratégias, a professora destaca a importância de rodas de conversa, projetos pedagógicos e acompanhamento psicológico que permitam discutir masculinidades, respeito e convivência entre os estudantes. Para ela, esse trabalho também precisa envolver os meninos. “A gente fala muito sobre o feminismo, o que é importante, mas também é preciso discutir o que significa ser homem e os impactos do machismo na forma como esses jovens se relacionam”, afirma.
Pesquisadora de educação na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e docente permanente no Mestrado de Vigilância em Saúde da Universidade de Nova Iguaçu (UNIG), Maria Luiza Süssekind, atenta que a violência de gênero não é um fenômeno escolar, é um fenômeno social. Isto é, tanto a causa, quanto a solução não estão localizados apenas na escola. “Vivemos em uma sociedade patriarcal que hierarquiza grupos que são descartáveis”. E esse pensamento violento é disseminado na sociedade de múltiplas formas. “Hoje as redes sociais são um espaço altamente eficiente de ensino aprendizagem de misoginia, ódio e violência de gênero.”
Os professores ou a instituição escolar não são capazes de solucionar um problema que atravessa o espaço escolar, afirma Süssekind. “Se é uma doença estrutural da nossa sociedade, precisa ser tratada de modo estrutural.” Ela identifica que tanto a escola quanto diversos outros setores da sociedade (universidades, governo, entre outros) não possuem protocolos para lidar com violência de gênero. Além disso, chama atenção que não é justo esperar e exigir de professores, que não têm condições de trabalho e formação adequadas, para sozinhos desenvolverem esses protocolos. Um protocolo eficaz, defende, precisaria garantir a cessação imediata da violência, o acolhimento da vítima com escuta qualificada, o acompanhamento psicossocial do agressor (que também pode ser vítima de outras violências) e o envolvimento de toda a comunidade escolar no processo de reparação, já que a violência vivida por um afeta o coletivo.
Süssekind defende que protocolos de reparação de violência de gênero precisam ser necessariamente intersetoriais, envolvendo os “múltiplos setores do executivo que têm o dever constitucional da garantia dos direitos sociais e civis”. Isso significa que órgãos como o Conselho Tutelar, o Ministério Público, a saúde, a assistência social e a justiça precisam trabalhar em conjunto com a escola, de forma articulada e contínua.
